Eu conheço o inverso das suas palavras. As afirmativas das suas negativas. As vírgulas do seu ponto final. As exclamações das suas interrogativas e as interrogativas das suas exclamações. Ouço a ausência em suas frases. Observo o improviso da sua coesão. Reconheço a sua ambígua coerência. Encaixo-me entre os seus parêntesis. Às vezes procuro alguma preposição que nos una. Vou mais longe e anseio por dois pontos que nos expliquem. Espero que a primeira pessoa do singular se torne a primeira pessoa do plural. Finjo que sou o seu objeto direto. Tento esquecer que você é um sujeito oculto. Maravilho-me pensando em metáforas. Reconheço a sua voz, sempre passiva. Imagino-te como a minha oração subordinada. Defino-te como o meu artigo indefinido. Finjo que o seu nome não se substitui por um pronome. Tento esquecer as suas reticências. Perco-me na nossa desconhecida gramática. Um dia aprenderei a conjugação do seu verbo.
Não vejo as nuances. Visto-as. Matizo-as. Misturo o branco da paz com o negro do luto (mas não visto o cinza, apesar de conhecê-lo). Enfeito-me com uma echarpe vermelha. Atenciosa, essa empresta a sua cor para as minhas iras (nem sempre escarlates). Às vezes, perco-as no azul místico que oscila entre as cores do oceano dos teus olhos (que não são azuis). De repente, ao regressar, incorporo-me de todas as outras cores. Eu: aurora corporal.

Você foi o meu maior fascínio.
Você foi o meu melhor declínio.
Você foi a minha má sorte.
Você foi o meu fiel consorte.
Você foi o abandono que ficou.
Você sempre e nunca me amou.
As palavras caladas falam.
Os olhares desviados intimidam.
As verdades escondidas esclarecem.
Os gestos contidos se mostram.
Os beijos esquecidos relembram.
Os abraços perdidos se encontram.
A embriaguez desvela a lucidez.
O medo engana a certeza.
A negação confirma o contrário.
O que é mostrado se esconde.
As crenças se desmentem.
O que é completo se desfaz.
A razão é a loucura.
O fim é inacabado.
As mais aromatizadas cores.
As mais sonoras flores.
Os mais saborosos amores.
O acariciar das dores:
O mais sinestésico dos ardores.
Um dia você para e pensa no que faz.
Estou parado agora pois não me lembro mais.
Do que me envenenava lentamente,sem pudor.
Eu busco inspiração mas só a encontro junto à dor.
Perdido entre becos e buracos apertados.
A arte imita a vida e o futuro é comprado.
A vida me condena,com problemas me iludo.
E contra os meus medos te uso como escudo.
No passado te odiei,hoje tenho gratidão.
Deixei transparecer todo medo e frustração.
Olhando quem sou agora,minha certeza está a milhão
de lágrimas corridas ou simples declaração.
Nunca fui quem sempre de tudo sai ileso.
Mas agora sinto em meus ombros todo o peso
de partir e deixar para trás momentos bons e ruins.
Apenas levo a dor de não ter dito não,ou sim.
Me sinto um pouco triste.Um pouco cansado.
Cometendo os mesmos erros do passado.
Por pouco não feri à quem sempre me quis bem.
Até eu conseguir quebrar aquilo que não se tem
conserto.
A vida é uma opção à se escolher.
A que menos doer pode não estar certa.
O que posso te dizer é:
Não siga setas.
Não procure um jeito fácil
de fazer tudo dar certo.
O sucesso é proporcionalmente
inverso à sua pretensão.
O universo pode estar em suas mãos
e você imerso em coisas fúteis.
Que nem mesmo um ladrão julgaria úteis a sua vida.
Servida em pequenos copos suas lágrimas vão secar.
Ao que você se refere é um pouco mais que pele.
O que te fere é um pouco mais do que sinto.
À cada orgasmo intenso.À cada espasmo suspenso.
Se existo logo penso que já não me pertenço.
Fantasmas são passado.
Mágoas são diferentes.
Tudo se cura com um copo d'água
e amigos suficientes.
Sei que não voltaremos, meu amor.
Ao menos tento convencer-me de que sei.
Hoje, o que se foi é o que me causa dor.
Imagino o que do futuro nunca saberei.
Mas se por acaso quiseres voltar.
Saibas que é só teu o meu coração.
Meus braços já não imploram para você ficar.
Porém, o meu corpo ainda sente a tua mão.
Exilaremos o nosso instinto.
Perdidos, forjaremos a direção.
Mas repito, não calarei o que sinto.
Saibas que é só teu o meu coração.
E o meu perdão.
Atravessaremos a noite.
Abraçaremos o nosso açoite.
Trocaremos o reflexo do sim pelo não.
Dessa forma, ficaremos unidos.
Amigavelmente ressentidos.
Compartilharemos a enganação.
Utilizarei o meu último verso.
E o seu sentido confesso.
Para dizer que é só teu o meu coração.
O meu coração.
E o meu perdão.
“If the doors of perception were cleansed everything would appear to man as it is, infinite.” [1]
Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.
Não havia tempo. Não havia dor. Só havia o necessário. Nem mesmo os caminhos cruzavam outros caminhos. As palavras não ecoavam. Não havia culpa. Não havia nem mesmo o verbo haver, com toda a sua impessoalidade. Não havia sorte, não era preciso. A palavra “não” era desconhecida. A palavra “medo” seguia o rastro dessa. Não havia lucidez. Só havia o momento. Não era preciso alegria, não era preciso senti-la. Não existiam mitos. Não existiam crenças. Não havia entrada. Não havia saída. Não existia o ter. Só bastava ser. Então existiria tudo. Existiríamos todos.
[1] William Blake. “The marriage of Heaven and Hell”.
Nem sempre encontramos caminhos.
Nem sempre nos vemos sozinhos.
Nem sempre a mentira é a culpa.
Nem sempre aceitamos a desculpa.
Nem sempre as palavras falam.
Nem sempre os sentidos calam.
Nem sempre o olhar encalça.
Nem sempre a verdade disfarça.
Nem sempre nos aceitamos.
Nem sempre nos concretizamos.
Nem sempre a alma vive.
Nem sempre a fé sobrevive.
Nem sempre nos extinguimos.
Nem sempre nós existimos.

Os fogos de artifício a fizeram sonhar. As diferentes nuances ficaram pintadas em seu rosto. A tristeza foi-se embora, apagou-se. As luzes dançaram sobre o seu corpo. Toda a sua amargura fora iluminada. Não consigo descrever o brilho que havia em seus olhos. Ela nunca foi tão bonita. Ela nunca sentiu-se tão bonita, tão colorida. Os fogos cessaram-se, mas ela continuou viva. Personificou-se o reflexo. Seu rosto iluminou-se de tal forma que senti-me cego. Ela parecia uma pintura impressionista. Impressionante. Nunca esquecerei aquele instante. Reluzente, ela iluminou-me os olhos, tocou-me os sentidos. Há tempos eu não via aquele brilho perdido. Iluminei-me com aquele sorriso. Da noite, fez-se o dia.
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Finges que tudo passa,
que o esquecimento basta.
Finges que tudo foge.
Roubaste-me a minha sorte.
Fortalece-te o que me dói.
Brincas com o que me corrói.
A mentira virou verdade.
A pureza tornou-se vaidade.
A dúvida tornou-se a resposta.
Confesso: fizeste-me morta.
Mas não ergas o teu troféu.
Não há atalho para o céu.
Nem, tampouco, para o paraíso.
Onde escondestes o meu sorriso?